DISCOS
Blitzen Trapper
Wild Mountain Nation
· 07 Dez 2007 · 08:00 ·
Blitzen Trapper
Wild Mountain Nation
2007
Sub Pop / Popstock!


Sítios oficiais:
- Blitzen Trapper
- Sub Pop
- Popstock!
Blitzen Trapper
Wild Mountain Nation
2007
Sub Pop / Popstock!


Sítios oficiais:
- Blitzen Trapper
- Sub Pop
- Popstock!
Sem evitarem encontrar o fantasma dos Pavement reflectido no espelho, a banda de Portland activa argumentos imaginativos que contornam o decalque.
Em termos gerais, o muito gasto termo indie adequa-se também à designação de um rock descomprometido e territorialmente incerto. Retoma à baila a tal etiqueta porque não existe realmente grande volta a dar-lhe no tratamento descritivo que merece a turma Blitzen Trapper – recentes aquisições da Sub Pop que não poderiam ser mais descarados e directos na montagem de um arquétipo indie que terá como ponto de referência o horizonte clássico da era 92-94. Poderiam, a partir daqui, estes bons rapazes de Portland tratar de preencher os pré-requisitos que se exigem aos infinitos clones dos Pavement, não fosse o engenho e conteúdo genuíno que demarca Wild Moutain Nation de um batalhão de discos aspirantes a sucessor legitimo do marco Crooked Rain, Crooked Rain. Mesmo assim, provoca algumas cócegas na memória o facto da Sub Pop, que em tempos muito facturou com o grunge, albergar actualmente uma banda como os Blitzen Trapper, que, se tivessem surgido em cena há quinze anos, fariam parte da resistência que facilitava a alternativa a quem não estivesse para inundar de flanela o seu guarda-roupa.

Os tempos mudam. Por sua vez, Wild Mountain Nation reproduz muito tradicionalmente as mesmas dinâmicas dos discos-Pandora que debitam géneros sem aparente explicação, mas que se encontram invariavelmente dispostos a perder a vida se for esse o sacrifício necessário à proliferação máxima de riffs e outros dispositivos aditivos no mais curto espaço de tempo (o álbum dura 33 minutos). Coincidentemente, o disco desorganiza-se assumindo a forma de pentatlo livre na sua progressão de géneros que – sem oferecer satisfações a inquisições – vão do rock de desbunda clássica presente na faixa-homónima “Wild Mountain Nation” ao rock de atitude que torna “Miss Spiritual Tramp” naquilo que poderia resultar se os Pavement e Blur se unissem dispostos a impressionar o exigente público de um festival tematicamente dedicado ao metal. À margem desses temas mais assimiláveis, Wild Mountain Nation comporta também quota certa de desvarios caoticamente bastardos e pontuais viragens rumo à country (permita-se aqui a repetição para explicar que “Country Caravan” encontra alguém que poderia ser Richard Swift a fitar o horizonte de um estado muito americano, após um duro dia de trabalho na fazenda). De um modo inexplicavelmente místico, Wild Mountain Nation parece ter resultado de sessões ocorridas em circunstâncias e localidades distantes entre si.

Sem forçar o domínio dos Pavement nestes três parágrafos, é também pertinente salientar que a qualidade que sacralizou o seu estatuto foi a inesgotável pontaria mantida em cinco álbuns, mesmo quando cada música parecia uma esfera sorteada numa lotaria diferente e apesar das sucessivas tentativas da banda de Stephen Malkmus em sabotar-se a si mesma (a maior vocação de Wowee Zowee será, porventura, essa). Wild Mountain Nation acumula à sua volta um campo carregado de energia por não exibir os sinais de seriedade que infectam as bandas que se julgam prestes a conquistar o mundo. Felizmente, a estridência e chinfrim de garagem destilado em chapas quentes como “Murder Babe” parecem proporcionalmente inversas às hipóteses de que dispõem os Blitzen Trapper em serem imediatamente adoptados pelas massas (apesar do hype que já os rodeia). Que rolem então por aí abaixo as restantes pedras dispersas no pico da montanha selvagem.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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